Salvem as enguias

Isabel Domingos

Para os apreciadores, é iguaria rara e disputada. Em Março, quem percorre, pelo menos, a estradas do concelho de Salvaterra de Magos (distrito de Santarém) consegue encontrar enguias…

Mas é petisco controverso, quer nos aconchegue o prato ou o estômago: algum preconceito bíblico (os detractores gastronómicos dizem que são bichos semelhantes a cobras) e um grande risco de sobrevivência da espécie são ameaças. É a segunda, como é evidente, que preocupa fundamentalmente os cientistas.
A enguia é «uma espécie abandonada em Portugal», diz, sem rodeios, Isabel Domingos, do Instituto de Oceanografia da Faculdade de Ciências (FCUL). Além disso, continua a investigadora, «não se lhe dá a devida importância económica».
As ameaças que pairam sobre a espécie são variadas e podem conjugar-se. Mas as principais são a sobrepesca de meixão, a construção de barragens e açudes que lhes limitam a circulação e, ainda, o aparecimento de um parasita, um nemátode que afecta a bexiga gasosa deste peixe e que lhe dificulta a capacidade de nadar? E, por isso, de migrar, o que é fundamental para completar o seu ciclo de vida.
Na sequência de uma iniciativa do ICES (Conselho Internacional para a Exploração dos Mares), que declarou, em final dos anos 90, a enguia como uma espécie «fora dos limites biológicos de segurança», surgiu em 2007 o Regulamento (CE) 1100/2007, cujo objectivo principal é estabelecer medidas para a recuperação do stock da enguia europeia.
Cada estado-membro da União Europeia foi obrigado a elaborar um Plano de Gestão da Enguia (PGE) ao abrigo desse regulamento, o que pressupõe a implementação de medidas de recuperação para reduzir o estado crítico a que a espécie chegou. O Instituto de Oceanografia foi contactado pela Direcção-Geral de Pescas e Aquicultura (DGPA) para colaborar na elaboração do PGE de Portugal, no qual participaram Isabel Domingos e José Lino Costa.
Isabel Domingos e a equipa do Projecto Enguia Limpa, que coordenou, estudaram, durante a elaboração do PGE, o estado da enguia (contaminação por metais pesados e infecção pelo nemátode parasita) em vários sistemas salobros portugueses? A Ria de Aveiro, a Lagoa de Óbidos, o Tejo, Santo André e Mira. Concluíram que esta não era a principal ameaça para as enguias em Portugal.
A pesca ilegal de meixão (a enguia juvenil) foi identificada como um dos grandes problemas que o peixe enfrenta no nosso país. O grupo acompanhou acções da GNR em Escaroupim e Valada do Ribatejo? Duas vilas piscatórias na região do Tejo? E deparou-se com enormes redes que podem pescar vários quilos de meixão de uma só vez. É uma actividade ilegal rentável: «No princípio da safra, um quilo de meixão pode chegar aos 600 euros», explica Isabel Domingos.
O destino do meixão são aquiculturas em Espanha ou o mercado asiático (Japão, Coreia e China). Os europeus dividem-se entre o gosto pela prateada, grande (no Norte) e os que gostam da amarela (no Sul), como é o caso dos portugueses.
É difícil fiscalizar. Mas também é complicado lidar com o plano político. Faltam dados sobre a espécie em Portugal e «o PGE ainda não foi aprovado». O mal não é só nacional, no entanto. Mesmo que se trate de um regulamento comunitário, ainda há alguns países onde os PGE não foram aprovados.
E a falta de dados impede que se ponha em prática, de forma eficiente, certas exigências do regulamento. É preciso, por exemplo, «garantir a saída de 40% dos reprodutores que migrariam das nossas águas [a enguia vai para o mar, onde se reproduz, e depois regressa aos rios] numa situação sem constrangimentos para a espécie. Mas como não temos dados históricos, não sabemos quantos são esses 40%», queixa-se Isabel Domingos.
Quanto às enguias que aparecem nos pratos nacionais, já dão sinal da carestia. Quem conhece o petisco, certamente provou aquele ensopado de enguias magras: são da América do Norte. Mas também já as importamos de Marrocos. Sinais dos tempos.

Fonte: Sol online

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