janeiro 26, 2011

Quatro paredes de mar…

 Esta é uma reportagem que não deixa ninguém que seja apaixonado pelo mar, indiferente.





Pescam polvos. Passam uma semana longe de casa e não ganham mais que o ordenado mínimo. Uns gostam de ser pescadores. Outros não.

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«PESCA, PESCA, PESCA, PESCA. Trabalhava só meio ano na obra. Depois só pesca, pesca, pesca, pesca. Mas não pesca sempre daqui. Antes trabalhava muitos anos de pesca em espadarte. Bem mais maior»

O discurso sai-lhe assim, como escamas, com os solavancos naturais de quem nasceu muito longe de Portugal. Petero, é ucraniano. Solta para o ar o fumo do cigarro enquanto fala de si. Ainda que tropece nas palavras, já não estranha o país que o acolheu há muito. Nem o mar que lhe encharca os olhos todos os dias.
Há já 11 anos que deixou para trás a Ucrânia e desembarcou em Portugal, para procurar trabalho, deixando o emprego que tinha como mecânico do frio. Pelo que conta, talvez a vida por estes mares não seja nem melhor, nem pior:
Talvez seja apenas diferente. «Com 11 anos eu já não sei outra vida. Agora tenho só uma vida, está aqui no Portugal. Lá na Ucrânia já não percebi nada agora». Mas não está arrependido de ter partido. «Não, acho que não».
Lá longe deixou a filha, agora com 15 anos. Também a segunda mulher. De vez em quando regressa para as rever: «Primeiro cinco anos, dois vezes cada ano. Agora menos». E alimenta a esperança de um dia as trazer consigo. Se gostava, ele, de regressar à terra? «Não é não gostava. É outra palavra. Agora percebi mais daqui. Agora vou para lá, para a Ucrânia, igual como vou para outro país. Onze anos tudo diferente. Agora percebi mais daqui». E vai continuando no mar: Todos os dias. Pesca, pesca, pesca, pesca.
Petro é um dos homens da companha de Domingos Postiga, dono e mestre do barco Vem Se Vier. Todos os Domingos, cerca de dez homens partem das Caxinas, de Vila do Conde e da Póvoa do Varzim. Juntos, seguem de carrinha até ao porto de pesca de Aveiro e fazem-se ao mar. Regressam ao cais duas ou três vezes por semana, apenas para descarregar o peixe, e continuam na faina.
A casa, às mulheres e aos filhos só tornam cada sexta-feira. Matam o cansaço do corpo. Descansam os afectos. E no Domingo voltam a partir. Vivem assim, fechados entre quatro paredes de mar. Pescam, sobretudo, polvo. Mas também peixe galo, linguados e raias. E outras espécies que venham morrer às redes.



Quando o peixe vira
Desta vez a partida não foi ao domingo. A barra não abriu devido aos humores do tempo e do mar e ficou adiada para segunda-feira de manhã.
Nas Caxinas, ainda o Sol vai baixo depois da alvorada, já se enche a carrinha com cerca de 500 potes apanha-polvos. Estes servirão para substituir aqueles que se perderam nas marés ou que foram perdidos nos arrastões de pesca.
Já em Aveiro passam-se as armadilhas para o barco. É início do trabalho, dos preparativos. Mais tarde será tempo de recolher os potes que há uma semana foram deixados no mar. «Não se pode levantá-los logo nos dias seguintes. Os polvos precisam de tempo para conhecer a casa», explica Domingos.
Além de virar os potes, também chegará o momento de lançar as redes para o peixe-galo. Redes de malha grossa. Serão seis «caças». Cada caça é composta por 50 redes e ocupa, em comprimento, uma milha de mar. No total são 9,6 quilómetros de redes, interligadas, aninhadas no fundo à espera de prender peixes. «As redes vão buscar o peixe que está rente ao fundo. Ficam meio deitadas, com jogo da cortiça e o peixe ao girar - o peixe tem uma hora de girar – chega ali e vai andando até malhar nas redes».

É tempo de matar o bicho. Um dos homens, entre outras tarefas, é responsável por preparar o almoço para todos. Sobre a mesa da sala comum, levanta-se um enorme tacho com bifanas refogadas em tomate e cebola. E outro com arroz. A carne está salgada. Fugiu-lhe a mão. Come-se em pratos e travessas de inox. Fala-se do trivial. Do Goucha e da Cristina que vão dando no aparelho pendurado na parede. De futebol. E de política. E os temas, em deriva, viajam até Espanha.
- San Sebastián é independente – garante um dos pescadores.
- Tu deves ter é uma bolha de sangue dentro da cabeça – atira outro sem perder tempo. Aquilo é tudo governado pelo `Sapateiro`.

Há amar e não amar
Vitor tem 47 anos. Desde os 17 que anda ao mar e há sete que faz a bordo do Vem Se Vier. Mas não o faz com paixão. «Não gosto desta vida», assustou-me. «Sou obrigado. Se pudesse ter outra vida melhor preferia. Outro tipo de trabalho mais tranquilo». Chegou a andar emigrado, «talvez uns dez anos», também na arte da pesca, em Espanha e na Irlanda. «Vivia-se melhor, mas tinha de pior a ausência. Eram dois ou três meses fora e só quatro ou cinco dias com a família, mas ganhava-se mais». Hoje, não é a semana fora de casa aquilo que mais lhe custa. É o trabalho. «É muito. Saio daqui saturado e com a idade isto já pesa. O trabalho em si não é duro, mas é muita hora. Já pensei em deixar, mas não me dá para isso. Ando com o destino. Penso em mudar, mas chego ao fundo e no fundo nunca resolvo mudar. Continuo sempre na mesma até que apareça uma coisa diferente. Não procuro. Se aparecer, apareceu; se não aparecer, continuo na mesma», diz, sem que se lhe note um estado de alma na voz. Nesse fundo de que fala, vai permitindo que a vida passe por si, enquanto se deixa estar entre quatro paredes de mar.
Mas o azul não é igual para todos. Não tem sempre a mesma cor. As ondas têm sabores diferentes quando a espuma se desfaz na alma de cada um.

Zé Luís, 43 anos de vida e 23 de pesca, sente os dias de outra forma. «Eu gosto. Já trabalhei em terra, era picheleiro e electricista, mas não me sentia bem. Vim para aqui e gosto de ser pescador. Gosto da aventura disto. Não se cumpre horários. Em terra não me sentia realizado. O mar chamava por mim. Não tenho o pensamento de deixar isto porque gosto mesmo de andar ao mar».
Nem mesmo o acidente que presenciou, há 22 anos, quando ainda era aprendiz da arte de caçar os peixes, o afastou das lides de pesca. Foi em Viana ao entrar na barra. «O barco foi abalroado por duas vagas de mar e dois homens caíram. Um salvou-se o outro morreu». Ficaram marcas. Confessa que ainda hoje, sempre que passa uma barra, se lembra do colega que perdeu, mas a vida seguiu em frente. «Quando saio de casa ao domingo à noite, saio sempre com alegria, sempre contente para vir para o mar. Ainda acho mar muito bonito. É por isso que adoro esta profissão». Um amor que resiste às semanas longe da mulher e ao ordenado mínimo, que ele e os colegas, em média, levam para casa no fim do mês. «Compensa. Para quem gosta disto acho que compensa».

Um dia bom
- Polvo! Polvo! Polvo!
Os gritos sucedem-se com poucos segundos de intervalo, à medida que os potes vão sendo puxados para dentro do barco. Uns trazem polvos, outros não. A maioria sim.
As tarefas entre homens estão bem divididas. Um supervisiona os potes que saem do mar; outro deita um pouco de lixívia para o seu interior – e o polvo, agredido pelo liquido corrosivo, salta fora do habitáculo -; mais uma ajuda com os olhos os potes, já vazios, a seguir de novo o caminho do mar; os restantes tratam do que falta, com navalhas desferem os golpes fatais nos bichos que vão morrer já condicionados nas caixas, uns sobre os outros. E repete-se, monótono, monocórdico, o mantra que marca o ritmo do trabalho.
- Polvo! Polvo! Polvo!
No total, depois de virados todos os potes, serão entre 500 e 600. Mais 15 quilos de rodovalhos, outros 15 de linguados e 40 de peixes-galo. Correu bem. Muitos dias e muitas noites há em que nada, ou quase nada, vai morrer às redes.

«Em matéria talvez cada camarada dos meus leve para casa o ordenado mínimo. À venda do peixe é preciso retirar os custos do gasóleo, os gastos com as redes, as reparações do barco, o dinheiro para alimentação…», explica Domingos Postiga. Mestre e patrão, tem 33 anos e começou a andar na pesca aos 16. «O barco, o antigo, era do meu pai e houve uma época com falta de pessoal. Vim para ajudar, foi numa semana em que calharam de ir um ou dois homens embora. Isso, a bem dizer, deu-me aquela força para ir para o mar. Não gostava muito disto, mas tinha que ajudar. Comecei, comecei, comecei e quando dei por ela já não conseguia deixar isto. Não sei porquê, mas não conseguia. Havia qualquer coisa que me dizia que ia ser o meu futuro. Há dias em que não gosto e há dias em que gosto. É como com todos os empregos, carago, tem dias bons e dias maus. Hoje foi um dia bom».
E o barco vai-se aproximando da barra. Quando o peixe estiver descarregado será de novo tempo de seguir mar adentro, talvez depois de algumas horas de descanso.
Ainda é terça-feira e só na sexta é que os homens vão voltar a dormir nas suas casas. Nas suas camas. Com as suas mulheres. Para matar o cansaço do corpo. E descansar os afectos. Até lá, a vida seguirá entre quatro paredes de mar.














Fonte: Tabu (Sol)

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