Por falar em Dead Zones...

E por falar em Dead Zones... leia-se esta noticia que data de 2008:

Oceano sem Oxigénio é ameaça que vem do Sul

Biólogos prevêem que a perda da biodiversidade e a morte dos ecossistemas no trópico possam afastar as espécies migratórias; por cá, o pescado capturado caiu 25% em nove anos e o atum está a escassear

O arquipélago da Madeira vai sofrer as consequências da diminuição de oxigénio nos oceanos. O biólogo madeirense Domingos Abreu prognostica a diminuição da biodiversidade e o afastamento de espécies migratórias como o atum. Estas são as repercussões que se podem sentir ao longo dos próximos anos, embora a evolução da última década revele sinais de algum esgotamento dos recursos marinhos: as quantidades de pescado diminuíram 25% em nove anos.

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O estudo sobre a perda de oxigénio (O2) na zona dos trópicos dos oceanos, publicado na revista 'Science', reforça a tese de que o aquecimento global está a gerar ambientes anóxicos (desprovidos de oxigénio) nos oceanos.
Um grupo de investigadores alemães e norte-americanos analisou a variação da concentração do gás ao longo de mais de quatro décadas, nas regiões tropicais do oceano Atlântico, Índico e Pacífico. E conclui que no Atlântico e no Pacífico existe uma camada de água a profundidades intermédias, com uma baixa concentração de O2, cuja área tem vindo a aumentar.
No oceano que nos cerca, há duas regiões que estão a se transformar em zonas de 'mar morto': uma junto à costa angolana e outra localizada à latitude do Trópico de Câncer, nas imediações do arquipélago de Cabo Verde.
É precisamente nesta última que os investigadores detectaram a maior diminuição do precioso gás no mar. 'Encontrámos a maior redução entre os 300 e os 700 metros, no nordeste tropical do Atlântico, enquanto as mudanças no leste do Índico são menos pronunciadas', disse Lothar Stramma, o primeiro autor do artigo, do Instituto para as Ciências Marinhas de Leibniz, na cidade alemã de Kiel, citado pelo jornal Público.
O facto da área com níveis de O2 mínimos ter quase duplicado em menos de 50 anos nesta região - a algumas milhas Sul do arquipélago da Madeira - é uma má notícia para a preservação de espécies, de 'habitats' e para a biodiversidade marinha e um mau presságio para os próximos anos, nesta região do globo (Nordeste do Atlântico) onde se insere os mares territoriais da Madeira.

Ilhas mais vulneráveis
'Menos oxigénio dissolvido significa menos capacidade para alguns organismos se manterem nesse ambiente e significa também alterações ao nível da composição e da estrutura alimentar', explica o biólogo madeirense Domingos Abreu. 'Este é um retrato de agora, porque no futuro pode haver reacções em cadeia', acrescenta o também bastonário da Ordem dos Biólogos.
O facto de, no Atlântico, a área com índices de oxigénio mínimo quase ter duplicado em menos de 50 anos, é uma mudança cuja evolução a Região Autónoma da Madeira deve seguir com especial atenção.
Domingos Abreu lembra que as ilhas do mundo contribuem com 'apenas' 1% da emissão de gases com efeito estufa, mas os insulares são quem mais está exposto às consequências naturais do aquecimento global, dada a sua dependência face ao mar.
'Estamos muito mais vulneráveis do que qualquer outra região em face da proximidade do mar, daí que a responsabilidade seja maior em face dos impactos do aquecimento global'.
Segundo o estudo da Science, é nas regiões tropicais do Atlântico e do Pacífico onde a presença de O2 mais tem desaparecido na água, a profundidades intermédias (200 metros).
'Há um conjunto de zonas do globo que, por via dessa mudança, vai se transformar em zonas desérticas, quase inabitáveis para determinados organismos e, para além das alterações físicas e químicas como a temperatura e propriedades da água, vai também afectar a composição, a estrutura, a abundância e ter impactos nos ecossistemas e nas espécies', observa o biólogo. Em suma, as regiões que mais dependem do mar são quem mais vão acusar a 'alteração dos ecossistemas e a diminuição, possivelmente, da biodiversidade, das espécies e dos seus 'habitats'.
Peixes migratórios : outro rumo
Por cá, a algumas milhas Norte das zonas anóxicas identificadas no estudo, as consequências podem começar a sentir-se, por exemplo, na dinâmica das espécies migratórias. 'Como os atuns ou os espadartes que migram em larga escala', aponta Domingos Abreu. 'E, como no mar não há fronteiras como em terra, as espécies ao passarem por essas zonas onde renovam o ciclo alimentar, serão obrigadas a se desviar à procura de alimento noutras zonas, mais acima ou mais abaixo', acrescenta.
No fim, somos nós quem mais perde com a diminuição. 'Basicamente, a espécie humana é a aquela que vai sofrer mais em primeira e última análise, porque nós somos os principais predadores e estamos na cadeia trófica lá em cima no último nível', explica.
O biólogo teme que os desequilíbrios nos ecossistemas possam contaminar a biodiversidade local e contribuir para a extinção de algumas espécies, embora numa escala menor ao do final do período Pérmico, há 251 milhões de anos (quando os oceanos ficaram sem oxigénio e desapareceram espécies marinhas em massa e, por conseguinte, seres terrestres).
'A extinção não é só uma questão de emblema, porque a espécie tem um papel funcional no ecossistema e com o seu desaparecimento perde-se uma chave no ecossistema, e poderão também desaparecer propriedades importantes, como atenuadores do clima, moderadores da poluição, estruturas, promotores da paisagem e da estabilidade', explica o biólogo, ex-director regional do Ambiente.

Captura de peixe cai 25%
Ainda que as primeiras consequências deste fenómeno sejam sentidas ao nível local - nos trópicos - não deixa de ser curioso o facto de, na Madeira, se assistir a uma diminuição nas quantidades de pescado capturado. Dados da Direcção Regional de Estatística indicam que, em 1998, tinham sido descarregadas 9,4 toneladas de peixe, uma marca que caiu para 7,1 toneladas no ano passado.
E se o total de pesca descarregada no Funchal diminuiu 24% nos últimos nove anos; a pesca de atum (uma das espécies migratórias que podem mudar de rumo em face da perda de oxigénio nos mares) teve uma quebra de 25% nos últimos dois anos. Haverá uma correlação entre os fenómenos? As opiniões dividem-se.

Estação de Biologia recusa especular
Estabelecer uma correlação entre a diminuição de capturas de atum e de pescado e a perda de oxigénio nos oceanos é algo que Manfred Kaufmann, biólogo da Estação de Biologia Marinha, especializado em oceanografia, recusa fazer. 'Isso é especular porque os atuns são espécies altamente migratórias e também têm populações cíclicas, e digamos, uma correlação directa é mais difícil de estabelecer'.
O biólogo alemão é mais prudente a fazer a futurologia no grande oceano, mas aceita a tese: 'A uma certa profundidade há uma zona de mínimo de oxigénio e o aquecimento global poderá agravar a dinâmica nessa zona'.
Os primeiros seres a serem afectados por esse ambientes anóxicos são aqueles que não têm oportunidade de fugir. 'Os primeiros seriam os organismos animais que estão fixados e que não têm a oportunidade de se deslocar, como os corais, as esponjas'. No seu lugar, alojam-se bactérias que têm um determinado metabolismo que dispensa oxigénio. 'E isso agrava ainda mais ainda o problema', observa Manfred Kaufmann.


Fonte: Ver aqui

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